quinta-feira, 6 de março de 2008

CINEMA - ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ


Ia escrever uma crítica sobre Onde os Fracos não tem Vez, mas acabei de ler esta matéria do crítico argentino Leonardo D Espósito, que me poupou o esforço, pois bate exatamente como que penso dos Irmãos Coen (apenas não coincido numa coisa: não achei o trabalho de Javier Bardem nada espectacular. Entendo, como ouvi por ai, que ganhou um Oscar graças a seu penteado de dona de casa da década de cinquenta)

Auto ajuda para um tempo tenebroso

A historia deriva do gênero noir; a iconografia e a do faroeste adaptado aos tempos modernos; os personagens e muitas situações misturam a ironia violenta com a admoestação. A mescla funciona a meias.

Clave em tudo isto é a atuação de Tommy Lee Jones. Suas frases combinam piadas irônicas acerca da policia, com reflexões sobre o passo do tempo e o sentido do bem e do mal. Estas ponderações soam a comida pré digerida, quase a manual de autoajuda. Como costuma acontecer ainda nos seus melhores trabalhos, os Coen precisam mostrar que são eles e somente eles os que definem cada plano, os que não permitem que respirem com a imprevisão e o azar. Alem disso, contagiam-se de um mal constante no cinema contemporâneo, aquele que indica que um filme é uma coisa inútil se não deixa uma mensagem para o público.

Então afunda-se o que até um determinado momento foi um caminho sinuoso mas percorrido a velocidade das balas, com cenas de violência e suspense extraordinárias (o ataque dos homens sem rosto em plena planície com caes ferozes incluídos; a fuga do personagem de Josh Brolin do motel no primeiro encontro com o assassino; o enfrentamento de ambos numa rua obscura e temível). Em primeiro lugar, o crescendo de violência e a acumulação de cadáveres resta importância a cada morte. Segundo, os diálogos que combinam o sarcástico com o filosófico ou o trágico resultam, para o espectador, literários demais. Não bastam os sotaques do interior texano que logram Harrelson ou a pobre esposa interpretada por Kelly MacDonald: nota-se ali que alguém está detrás da câmera marcando como deve se dizer cada frase para que tudo fique claro.

Perto do fim, Tommy Lee Jones acorda de um pesadelo em que estava com seu pai – policial também – e o conta para sua mulher. Funciona da mesma forma que o relato sobre o objeto voador que fecha com um toque absurdo O Homem que não estava lá, outro filme-ensino dos Coen sobre como o Mal –com maiúsculas- se apropria de nosso mundo. Os Coen inserem estas declarações finais como Samaniego suas morais, atrelando o sentido do filme e evitando que o espectador se faça questionamentos ou pense por si próprio no que acabou de assistir. Os Coen tratam ao público como o assassino trata a esses pobres coitados que o ajudam no caminho: como ingênuos ignorantes que acabam com uma mensagem contundente atravessada no cérebro.


Falou bonito. Para mim, o cinema dos Coen funciona melhor quando falto de pretensões. São comêdias como E Ai Irmão, Cadê Você ou Arizona Nunca Mais as que mostram melhor o talento dos irmãos com a câmera, a música e a locura.

Um comentário:

Xacal disse...

Concordo plenamente Don Alejandro...
O cinema dos Cohen está expresso, definitivamente, em Ei irmão...
Consegue até fazer George Clooney atuar...ou qualquer coisa parecida com isso...
A bem da verdade esse filme expressa não só o "modo" Cohen, mas um tipo de linguagem que cede cada vez mais espaço ao "dirigismo" pasteurizado e domesticado das "mensagens" e "polêmicas" de aluguel...
A verdadeira expressão da arte, nõa importa sob qual meio, é seu descompromisso com a verdade, o que não a torna menos real...

Um abraço

Xacal