segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Conspiração




Na sua crítica do filme “A Queda – As últimas horas de Hitler”, Isabela Boscov, editora da revista Veja, falou o seguinte:



“...Um dos melhores filmes sobre Adolf Hitler é aquele em que ele não aparece – Conspiração, do diretor americano Frank Pierson, sobre a Conferência de Wannsee, na qual se discutiu a implementação da "solução final", o eufemismo para o extermínio dos judeus. Sentados à volta de uma mesa, numa mansão isolada no campo, Kenneth Branagh e outros grandes atores debatem durante horas atalhos jurídicos, questões semânticas e problemas técnicos (por exemplo, a capacidade de incineração dos fornos versus o número de cadáveres a ser produzido a cada dia). Alguns dos presentes se dão conta da enormidade do que está em pauta, mas para a maioria o tema da reunião não passa de um emaranhado burocrático a ser desnovelado ao gosto do seu dirigente. As pessoas que estão em volta dessa mesa não são os fracassados que Hitler alçou à condição de super-homens, como Himmler, Goebbels e Martin Bormann. São advogados, médicos, historiadores, administradores. Que eles se abanquem para elaborar um estatuto do assassinato em escala industrial de seres humanos faz com que o espectador sinta o chão fugir-lhe dos pés. Que domínio é esse que aquele homúnculo com um bigode ridículo tinha sobre homens mais inteligentes do que ele, é a primeira pergunta que se faz. A seguinte é se qualquer homem ou mulher, de qualquer época, poderia então consentir num pacto semelhante...”

O filme não foi editado em DVD no Brasil.

2 comentários:

Xacal disse...

Não vi o filme, mas espero poder assistir...

seu comentário é precioso...

a grande questão sobre regimes totalitários é a incorporação de suas "tarefas" atrozes, em uma sistematização burocrática e metódica...

não se trata de um bando de tarados, monstros e degenerados...

são pessoas como nós, encharcados de ideologia, ciosos da necessidade de "cumprir seu dever"...

Gustavo Alejandro Oviedo disse...

É verdade, Xacal. Aconteceu isso na ditadura argentina também. As barbaridades executadas foram cometidas por pessoas "comuns" que torturavam no expediente, e no final do dia iam brincar com seus filhos.

O que não deixa de ser infinitamente mais perturbador, pois demonstra que a linha que nos separa da irracionalidade pode atingir a qualquer individuo, desde que o contexto social o justifique.