segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


TOMAS ELOY MARTINEZ
16/ 07/1934 - 31/01/2010

"Que venha o Manco Ansalde- ordenou- Quero ele aqui, agora.

As portas que estavam detrás da Senhora abriram-se na hora, revelando um deposito onde se acumulavam bicicletas, geladeiras e vestidos de noiva. Dentre as caixas, avançou um homem magro e desajeitado, com as veias da testa tão dilatadas que parecia um mapa do sistema circulatório. As pernas se abriam formando um oval perfeito. Estava pálido, como se o levassem à forca.

- Você tirou a casa desta pobre mulher- afirmou Evita.

-Não, Senhora –disse o Manco- Dei a ela um apartamento menor. Ela é sozinha e tinha três quartos. Eu tenho cinco filhos que dormiam amontoados na sala. Paguei-lhe a mudança. Ajeitei-lhe os móveis. Infelizmente quebrei uma cadeira de vime, mas no mesmo dia lhe comprei outra.

-Você não tinha esse direito - disse Evita. Não pediu permissão a ninguém.

-Por favor, Senhora, me perdoe.

-Quem te deu a casa que você tinha?

-A senhora é quem me deu.

-Eu te dei, e agora vou tirar. Devolve agora mesmo o apartamento à companheira e coloca todas as coisas onde estavam.

-E eu vou aonde, Senhora?- o Manco olhou para a multidão em busca de solidariedade. Ninguém abriu a boca.

-Você vá à merda, de onde nunca devia ter saído - disse Ela-. O próximo.

A mulher se ajoelhou pra beijar as mãos de Evita, mas Ela as afastou com impaciência. Parado junto à porta do deposito, o Manco Ansalde não queria ir embora. As borboletas do choro lhe invadiram o rosto, mas a vergonha e a incerteza não as deixaram sair.

-Um dos meus filhos tem bronquite – suplicou-. Como vou tirá-lo da cama?

- Chega- disse Evita-. Você sabia em que estava se metendo. Agora deve saber como sair."

SANTA EVITA - 1995