quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mangabeira, ou a segunda engolida de sapo petista

“Tenta-se abordar o núcleo duro da pobreza com programas capacitadores e aí não funciona. Populações mais miseráveis são cercadas por um conjunto de inibições até de ordem cultural, que dificulta o êxito desses programas”

Mangabeira disse, ainda, que existe (o deveria existir)uma categoria sociológica nova: a dos batalhadores, que estariam mais perto da classe média do que os pobres-pobres.

Falando mal e pronto, o ministro falou aquilo que o pessoal de esquerda tanto critica quando ouvido da boca do "homem comum": tem pobres que querem continuar pobres, preferindo continuar vivendo às custas do trocado que o estado lhes dá.

Curiosíssimas declarações. Isto vai dar pano pra manga!

4 comentários:

Xacal disse...

Caro Gustavo,

O debate sobre redes de proteção social sempre foram permeados por preconceitos: sejam à esquerda ou à direita...

A ideologização desses instrumentos atrapalha, e muito, sua eficácia e a correta avaliação de seus resultados...

Por outro lado, a opinião do Mangabeira ou do "homem comum" devem ter suas dimensões contextualizadas: são diferentes, mas Mangabeira não detém uma autoridade monolítica sobre o senso do "homem comum"...seu anos de estudo e cátedra não o livram de falar asneiras...

O que não é o caso aqui...a pobreza traz sim efeitos colaterais, como a "conformação" e "estagnação", por exposição prolongada a falta de esperança e perspectiva de futuro...
Esse traço produz um "caldo cultural" de mendicância endêmica...

No entanto, esse traço também se faz presente em classes mais abastadas, que por deterem ferramentas mais sofisticadas de representatividade e apresentação de suas demandas, as revestem, ideologicamente, de nomes melhores e mais pomposos, como: PROER, taxas progressivas de imposto de renda, bolsas de estudo, incentivos fiscais e fundos de desenvolvimento, etc...

É possível que esses dispositivos funcionem para alguns, e viciem outros...? é claro...mas a pergunta é: quem precisa mais de ajuda...? e mais: dentre 100 pobres-pobres, se revelarmos 10 batalhadores, não estaremos avançando...?

Programas de proteção social não são invenções da "esquerda", nem do pt, você bem sabe...
Há um consenso que a exclusão total dos pobres-pobres, deixando-os entregues a própria sorte, não traz nenhuma "economia" de recursos, e desperdiça um bem que não tem preço: vidas humanas, qualquer que seja sua condição: pobres-pobres ou batalhadores...

um abraço...

Gustavo Alejandro Oviedo disse...

Concordo contigo, Xacal. Mas o que me chama a atenção é a brutal sinceridade das declarações do Ministro. Imagina se as mesmas palavras tivessem sido pronunciadas por, digamos, por José Serra ou Sergio Cabral.

Abraço.

Xacal disse...

Essa é uma das principais virtudes dele, e concordo com vc...o fato dele ser professor em Harvard lhe confere certa imunidade dentro do governo e fora do governo...

Essa moeda, como todas, tem dois lados...e se é bom que exista alguém com proeficiência acadêmica que possa emitir conceitos de forma independente, por outro lado, o governo fica um pouco refém dessa "qualidade", e deixa de cobrá-lo por suas atitudes políticas...

um abraço...

Roberto Torres disse...

Quando Mangabeira fala sobre as "inibcoes culturais" ela nao pretende dizer que alguns pobres querem ficar as custas do estado. So vemos desse modo porque achamos natural ver o mundo como se ele fosse movido por vontades individuais. Mas quando ampliamos nosso olhar,para melhor, vemos que o que Mangabeira disse foi sobre as determinacoes sociais que fazem as pessoas se adaptarem a sua condicao, como Xacal já disse. Nao há culpa dos pobres.. Defender isso ó mesmo numa posicao que ignore ver a realidade realisticamente. Eles sao produto de uma sociedade que os relega os lugares sociais onde eles nao podem incorporar e aprender a planejar o futuro, dado que sempre foram escravos do presente. Sobre o incomodo de ter um Mangabeira no governo, eu diria que ele vale a pena, pois traz algo de novo na forma de se fazer política com debate.