domingo, 21 de novembro de 2010

Uma série de acontecimentos irrelevantes



Esta história começou há muito tempo, às 13:25 de hoje. Enquanto lavava a louça, tinha deixado o computador ligado no site Grooveshark, o qual permite ouvir praticamente qualquer música que tenha se editado alguma vez em vinil, fita ou cd.Já quase terminando meus afazeres domésticos, pensava qual seria a próxima lista de reprodução que iria colocar no Grooveshark. Aí, lembrei de Nino Bravo, um cantante espanhol que morreu em 1973 num acidente de carro, no topo do êxito .

Nino Bravo

O cara foi, pelo sucesso e pelas canções, uma espécie de Roberto Carlos hispânico. Minha mãe costumava escutar Nino Bravo no seu “toca-discos” (assim se chamava em Argentina o reprodutor de vinil, e não penso procurar o nome equivalente em português). Recordava de Bravo sua potente voz e algumas canções, a maioria românticas. Nunca me interessei por ele nem ouvi de novo suas musicas desde que saí da esfera de influência materna.

E esse o carro onde se matou, em 1973.

Pois bem, decidi ouvir a música "Libre", de Nino Bravo, no site de musica que já foi citado oportunamente. Era a única musica que lembrava desse artista, e cuja letra diz:

tiene casi veinte años y ya está
cansado de soñar;
pero tras la frontera está su hogar, su mundo y su ciudad.
piensa que la alambrada sólo
es un trozo de metal algo que nunca puede detener
sus ansias de volar.

libre,
como el sol cuando amanece yo soy libre

como el mar.
libre,
como el ave que escapó de su prisión

y puede al fin volar. libre,
como el viento que recoge mi lamento y mi pesar,
camino sin cesar,
detrás de la verdad,
y sabré lo que es al fin la libertad.

con su amor por bandera se marchó cantando una canción;
marchaba tan feliz que no escuchó
la voz que le llamó.
y tendido en el suelo se quedó,
sonriendo y sin hablar;
sobre su pecho, flores carmésí brotaban sin cesar.

Como falei, nunca dei muita bola para as letras de Bravo. Essa aí ficou na minha memória como a estorinha de uma cara que decide se afastar da sua terra para “ser livre”, ou seja, para viver intensamente a plenitude de sua existência, em consonância com os preceitos “new age” que, eu pensava, estavam à moda nos finais da década de 60. Tudo meio brega e batido, representado pelo refrão:

Livre,

Como o sol quando amanhece eu sou livre

Como o mar

Livre

Como a ave que fugiu da sua prisão

E pode finalmente voar

Livre

Como o vento que recolhe meu lamento e minha tristeza

Ando sem parar

Em busca da verdade

E saberei por fim o que é a liberdade.

(digressão: porque a palavra “livre” leva ‘v’ e a palavra “liberdade” ‘b’ em português? Qual o sentido?)

Ou seja, até ai parecia uma letra tão pouco interessante quanto uma música evangélica. Mas, a seguir, ouvi o seguinte:

Andava tão feliz que não escutou

A voz que o chamou

E deitado no solo permaneceu

Sorrindo e sem falar

Do seu peito, flores vermelhas

Brotavam sem parar.

Opa...o cara começou a sangrar... O que é isso? O assunto não era a felicidade da vida, da juventude e toda essa porra? Como é que agora percebo isso?

Pois bem, bastou uma acessada ao Google para saber a verdade: a música homenageia Peter Fechter, um rapaz de 18 anos que se supõe foi um dos primeiros a morrer atravessando o muro de Berlim, em 1962. Disse a internet:

Peter Fechter, um operario da construção de 18 anos, tentou fugir junto com um amigo e colega de trabalho, Helmut Kulbeik. Tinham pensado se ocultar na oficina de um carpinteiro, perto do muro, e depois de observar os guardas da ‘fronteira’ se afastar, pular por uma janela para o chamado “corredor da morte”, atravessar ele correndo e logo pular o muro perto do Checkpoint Charlie, em Berlim Ocidental.

Até chegar ao muro as coisas saíram como planejado, mas quando estavam acima dele, prontos para passar para o outro lado, os soldados deram a voz de alto e a seguir dispararam. Helmut teve sorte. Peter, no entanto, foi atingido por vários tiros na pélvis, caindo para trás e ficando deitado na “terra de ninguém” durante 50 minutos, enquanto perdia sangue a vista de todos, e sem que ninguém fizesse nada.

Pediu ajuda, mas os soldados soviéticos que tinham disparado não se aproximaram. O único que fizeram os soldados americanos foi lhe jogar um estojo de primeiros-socorros, que de nada ia ajudar devido aos seus graves ferimentos. Aos poucos Fechter foi perdendo a consciência. Durante quase uma hora, os cidadãos de ambos os lados de Berlim assistiram impotentes a agonia do jovem, gritando para que o ajudassem.

Mas tanto os soldados ocidentais quanto os orientais temiam que os outros atirassem, como já tinha acontecido em outras ocasiões.

Por volta das 15 horas, foi recolhido morto.

Quer dizer: a música “Libre”, de Nino Bravo, não era uma canção brega acerca da alegria de viver, como pensei durante mais de 30 anos, mas uma canção brega em homenagem a um jovem que morreu assassinado por questões políticas.

Diria, surpreso, e em argentino: “Mirá vos!”

Veja o clipe jurássico de Nino Bravo, cantando "Libre" em playback.


3 comentários:

Eduardo Braga disse...

No Brasil também usávamos a palavra "toca-discos". Livre e liberdade provavelmente tem haver com a origem diferente em que cada palavra furgiu em Portugal, provavelmente uma direto do latim e a outra do francês, espanhol ou inglês, presuponho. A história que aconteceu no muro é muito emocionante e merecia um filme, se já não existe...

Gustavo disse...

Eduardo, obrigado pelos comentários. Não há nenhum filme de ficção sobre Fechter, embora existam alguns bons documentários sobre ahistória do muro.

Abs

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

Jesus fez isso por todos nós.

Está escrito.

Continua fazendo!

Vem.
Palavrinha
perites

Ele é perito em morrer de paixão, pela liberdade do próximo.